Cid aliado ao PT, Ciro em acordo com PL: eleições de 2026 renovam rixa entre irmãos Ferreira Gomes

Irmãos Cid e Ciro Gomes brigaram publicamente em 2022. Fabiane de Paula/Thiago Gadelha As eleições de 2026 vão marcar mais um capítulo na rixa entre os irm...

Cid aliado ao PT, Ciro em acordo com PL: eleições de 2026 renovam rixa entre irmãos Ferreira Gomes
Cid aliado ao PT, Ciro em acordo com PL: eleições de 2026 renovam rixa entre irmãos Ferreira Gomes (Foto: Reprodução)

Irmãos Cid e Ciro Gomes brigaram publicamente em 2022. Fabiane de Paula/Thiago Gadelha As eleições de 2026 vão marcar mais um capítulo na rixa entre os irmãos Cid Gomes (PSB) e Ciro Gomes (PSDB). De um lado, o senador vai concorrer novamente ao Congresso, enquanto o ex-ministro vai tentar voltar ao governo do Ceará após 32 anos da última gestão no estado. Cid Gomes foi confirmado, nesta terça-feira (14), como pré-candidato ao Senado — o deputado federal Junior Mano (PSB), que já foi expulso do PL, vai ser o 1º suplente. A chapa é apoiada pelo presidente Lula. Em maio, Ciro Gomes lançou a pré-candidatura ao Executivo cearense. Ele é apoiado por lideranças de direita, opositores do PT nos âmbitos estadual e nacional, como o deputado federal André Fernandes e o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro — ambos do PL. LEIA TAMBÉM: Entenda o que levou ao fim da aliança entre PT e PDT no Ceará às vésperas da campanha eleitoral Quem é quem na disputa eleitoral do Ceará que levou ao racha entre Michelle e Flávio Bolsonaro A rixa entre os irmãos, dois dos principais nomes da política cearense, ficou pública em 2022 após o fim da aliança de 16 anos entre PT e PDT no Ceará. Aliança esta costurada justamente pelos dois, em um período em que Ciro era considerado o “mentor intelectual” do projeto e Cid o executor. Agora no g1 Últimas eleições Se as eleições de 2022 foram consideradas por muitos uma das mais – se não a mais – divididas da democracia brasileira, o Ceará e a família Ferreira Gomes não passaram incólumes pela disputa. Conforme o próprio senador Cid Gomes, ele e Ciro não se falam desde agosto daquele ano. Dois anos depois, as eleições municipais, principalmente em Fortaleza, escancararam ainda mais os problemas do ex-grupo aliado e suas ramificações. O ex-prefeito da capital, Roberto Claudio, declarou apoio a André Fernandes durante o segundo turno do pleito. Do outro lado, estava Evandro Leitão, que acabou sendo eleito. O chefe do Executivo municipal era recém-chegado ao PT, após anos no PDT. Hoje, Roberto Claudio, que saiu do PDT, é presidente municipal do União Brasil em Fortaleza e vice-presidente da Federação PP/União no estado; e apontado como possível vice na chapa de Ciro ao governo do estado. O presidente da federação progressista no Ceará é o bolsonarista Capitão Wagner (União), que deve ser um dos candidatos ao Senado apoiados por Ciro. O início do grupo Ferreira Gomes Ciro e Cid foram responsáveis por tornar o clã Ferreira Gomes uma força política de nível estadual no Ceará Agência Câmara Ciro Gomes já era deputado estadual quando foi eleito prefeito de Fortaleza nas eleições de 1988. Ele tomou posse como prefeito em 1989 e, em 1990, concorreu ao governo do Ceará e foi eleito governador, cargo que assumiu de 1991 e deixou em 1994, quando foi indicado ministro da Fazenda do governo Itamar Franco. Estes cargos foram os primeiros de projeção estadual e nacional de um membro da família Ferreira Gomes, que já era tradicional na política de Sobral, uma das maiores e mais importantes cidades do Ceará, localizada na região norte do estado. O pai de Ciro e Cid, por exemplo, foi prefeito da cidade. À época de sua eleição ao governo, Ciro era do grupo político do ex-senador Tasso Jereissati (PSDB), que governou o Ceará por três mandatos e, no intervalo entre eles, fez sucessores. Em 2006, porém, a família Ferreira Gomes rompeu com o grupo de Tasso e lançou um nome próprio ao governo do estado: Cid Gomes. Cid foi eleito deputado estadual em 1991. Em 1996, foi eleito prefeito de Sobral e se reelegeu em 2000. Quando seu nome foi lançado ao governo cearense em 2006, ele enfrentou o então governador, Lúcio Alcântara (PSDB), aliado de Tasso, e o derrotou com 62% dos votos. A partir deste mandato inicial de Cid, o grupo da família Ferreira Gomes se consolidou como a principal força política do estado. “O grupo político do Ferreira Gomes foi durante praticamente 16 anos o grupo político mais forte do Nordeste. Mais forte em que sentido? Mais forte em capilaridade, presente em todo o Ceará, em número de figuras de liderança, tinha mais de 300 lideranças políticas, do vereador ao governador; e também pela unidade, pela coesão. Onde é que está a força de um grupo político? Na unidade”, pondera o cientista político Clayton Monte, que estuda os Ferreira Gomes há mais de dez anos. “Cid sempre foi a figura de lidar com os prefeitos e Ciro sempre foi a liderança de pensar o grupo em termos de projeto. Ele sempre esteve ligado muito mais à dinâmica nacional que estadual. Como deputados chamavam, ele sempre foi o líder intelectual do grupo”, descreve Clayton. Nos anos seguintes, o governo Cid Gomes garantiu maioria na Assembleia Legislativa e formou uma base aliada com vários partidos, incluindo o PT, e angariou o apoio de dezenas de prefeitos no interior do estado. Irmãos Ivo, Ciro, Lia, Lúcio e Cid Gomes. Dos cinco, quatro exercem ou exerceram mandatos políticos. Reprodução/Redes sociais Os irmãos de Ciro e Cid também trilharam caminho na política. Ivo Gomes, que já era deputado estadual desde 2002, foi chefe de gabinete de Cid e, em 2016, foi eleito prefeito de Sobral, assim como Cid e como o pai dos dois. Lia Gomes foi secretária e, desde 2022, é deputada estadual. Em 2012, o grupo lançou o então deputado estadual Roberto Claudio candidato à Prefeitura de Fortaleza, cargo até então ocupado pela ex-petista Luizianne Lins. Roberto enfrentou o deputado estadual Elmano de Freitas, que na época foi escolhido por Luizianne para sucedê-la. O candidato de Cid venceu Elmano. Com isso, o grupo político dos Ferreira Gomes viveu uma situação de conflito com o diretório do PT de Fortaleza, embora mantivesse a aliança com o PT estadual. Foi, inclusive, dos quadros do PT que Cid Gomes escolheu seu sucessor: Camilo Santana. Camilo emergiu na política estadual após ser indicado por Cid como secretário do seu governo, ainda no primeiro mandato. Em 2010, na reeleição de Cid, Camilo deixou o secretariado para concorrer a deputado estadual e foi o mais votado daquele ano. Em 2014, com Cid de saída, os Ferreira Gomes costuraram o apoio para Camilo concorrer ao governo cearense, e ele ganhou com 53% dos votos. “[Esse grupo dos Ferreira Gomes] foi ampliando poder numa aliança com a esfera nacional, com o lulismo, e foram garantindo investimentos, recursos, e garantiram também a governabilidade a partir de uma aliança com PT e com os partidos que de certa forma faziam aliança com o governo Lula e depois com governo Dilma. Esse grupo conseguiu permanecer com a eleição e reeleição do Camilo Santana, e ele entrou numa crise grave a partir de 2022”, detalha Clayton Monte. O rompimento de 2022 Em 2022, a coesão do grupo Ferreira Gomes ruiu durante o processo de escolha do sucessor de Camilo. Bem-avaliado, Camilo deixou o cargo de governador em abril para poder concorrer ao Senado. Com a saída de Camilo, sua vice, Izolda Cela, assumiu o governo cearense. Com trajetória no PT, ao qual foi filiada até 2013, Izolda era conhecida de longa data da família Ferreira Gomes. Sobral é considerada uma cidade símbolo pela revolução que operou na educação pública, isto é, no ensino infantil e no ensino fundamental. Izolda é considerada uma peça-chave nesse processo. Quando foi eleito governador em 2006, Cid levou Izolda para a Secretaria Estadual de Educação, onde permaneceu até 2014, quando deixou o cargo para concorrer como vice de Camilo. Em 2022, Izolda estava filiada ao PDT. Até então, era consenso que, repetindo o sucesso das últimas eleições, PT e PDT manteriam a aliança. Camilo, Roberto Cláudio, Ciro e Cid Gomes juntos durante campanha de reeleição de Roberto para a Prefeitura de Fortaleza, em 2016 Reprodução/Redes sociais A bola da vez estava com o PDT, que iria indicar o candidato. Desde que encerrou os dois mandatos à frente da Prefeitura de Fortaleza com boa avaliação, Roberto Claudio apareceu como um dos nomes mais fortes dentro do PDT para concorrer ao governo do Ceará. Com a saída de Camilo do cargo e ascensão de Izolda como a primeira mulher governadora do estado, o cenário mudou. Parte da aliança defendia que Roberto Claudio era o melhor nome para disputar o governo do estado contra o bolsonarista Capitão Wagner, que aparecia à frente nas pesquisas. Ciro e Lia Gomes integravam este grupo. Outra parte da aliança defendia que Izolda, no cargo, teria o direito natural de concorrer à eleição. Camilo Santana, Cid e Ivo Gomes integravam este grupo. Em 2022, com a disputa aberta pela Presidência da República, a escolha do nome que iria concorrer ao governo do Ceará pela aliança estadual forjada pelos Ferreira Gomes também foi influenciada pela corrida presidencial, na qual Ciro Gomes era um dos concorrentes. Ciro e Roberto Cláudio juntos nas eleições de 2022. Thiago Gadelha/SVM “O Ciro, em todas as disputas dele presidenciais, por mais que ele perdesse a disputa, ele sempre tinha uma votação muito expressiva no Ceará, foi assim até 2018. E aí, o grupo liderado pelo Camilo Santana buscava construir a candidatura à reeleição da então governadora Izolda Cela. Só que a governadora Izolda Cela, mesmo que tendo ligação com Ciro e com Cid, ela sempre teve vínculos com PT”, afirma Clayton Monte. “O Ciro acreditava que, ela [Izolda] sendo a candidata, não iria entrar, não ia mergulhar com força na sua candidatura presidencial, que precisava de um nome mais identificado com ele. Daí o nome do Roberto Cláudio. Ele insistiu nessa candidatura, se tentou até o último momento uma forma de conciliação, mas ele insistiu na candidatura do Roberto Cláudio como representação da disputa, e essa candidatura do Roberto Cláudio acabou dividindo a base aliada”, explica o cientista político. No dia 18 julho de 2022, o diretório estadual do PDT, reunido em Fortaleza, votou entre o ex-prefeito Roberto Cláudio e a então governadora Izolda Cela. Roberto recebeu 54 votos contra 29 de Izolda, e foi escolhido candidato ao governo do Ceará. Cid apoiava Izolda, mas não se envolveu na disputa para não se opor publicamente a Ciro, que estava articulando sua candidatura presidencial a nível nacional. A partir da decisão do PDT, bancada por Ciro, o grupo rompeu. Cid e Ciro também. A situação repercutiu nacionalmente. Na convenção em que formalizou a chapa Lula-Geraldo Alckmin, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, criticou a decisão do PDT de não escolher Izolda. "Não entendo por que a Izolda não podia ser candidata à reeleição, estando no cargo e bem-posicionada nas pesquisas. Nós tínhamos o compromisso de apoiar", disse Gleisi. Depois, a candidatura de Roberto Cláudio foi lançada oficialmente em um evento em Fortaleza. Ciro estava no palanque e discursou. Cid e seu irmão Ivo Gomes, prefeito de Sobral, não estavam presentes. Cid Gomes, Izolda Cela e Camilo Santana reunidos. Reproduçãp/Redes sociais No mesmo dia, Camilo Santana publicou nas redes sociais uma foto com Cid Gomes e Izolda Cela. “Amigos que a vida me deu e que ninguém separa. Respeito, carinho e união sempre”, escreveu. Horas depois, Camilo anunciou Elmano de Freitas como candidato do PT ao governo do Ceará, confirmando oficialmente que o PT não iria apoiar a escolha do PDT e fazendo com que o grupo, pela primeira vez em mais de uma década, se dividisse em duas candidaturas distintas. Cid e Ivo não participaram da campanha de Roberto Cláudio. Em agosto de 2022, Ivo inclusive afirmou publicamente nas redes sociais que Cid não apoiava Roberto. Com o rompimento com os irmãos e seu ex-aliado Camilo Santana, o presidenciável Ciro Gomes decidiu não fazer campanha no Ceará. "Recebi uma facada poderosa nas costas. A traição é a cara do momento no Ceará. Resolvi não ir ao meu Estado pela primeira vez. Que o cearense diga lá o que quer fazer de mim”, disse ao podcast Claudio Talks. Ciro, Camilo, Ivo e Cid juntos durante campanha presidencial de Ciro em 2018 Sistema Verdes Mares Em 2018, Ciro foi o candidato à Presidência da República mais votado do Ceará no primeiro turno. O estado foi o único em que Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro não venceram no primeiro turno. Em 2022, Ciro acabou em terceiro lugar no Ceará. Roberto Cláudio, o candidato de Ciro ao governo cearense, também ficou em terceiro lugar na disputa. Elmano de Freitas foi eleito governador no primeiro turno. Disputa judicial e familiar Cid Gomes e Elmano de Freitas têm cultivado bom relacionamento. Fabiane de Paula/SVM Desde o rompimento de Cid e Ciro em 2022, o PDT no Ceará vivia uma situação de racha interno, com duas alas, uma liderada por Cid Gomes e outra por André Figueiredo, aliado de Ciro. André acumulava as funções de presidente nacional e estadual do partido, mas os aliados de Cid são maioria no diretório do partido. Cid defendia que o PDT Ceará retomasse a aliança com o PT e apoiasse o governador petista Elmano de Freitas, assim como já ocorria na esfera federal: Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT nacional, era ministro de Lula. André Figueiredo, alinhado a Ciro, defendia que o PDT Ceará seja independente de Elmano. O partido entrou em um verdadeiro cabo de guerra entre Cid e Figueiredo. Em junho de 2023, durante um evento regional do PDT em Fortaleza com presença de Ciro, o racha ficou claro: nem Cid nem seus prefeitos, deputados federais e estaduais aliados compareceram. Em 2024, Cid saiu do PDT e se filiou ao PSDB. Já em outubro de 2025, Ciro entregou uma carta ao PDT confirmando a saída dele do partido, após 10 anos filiado. Cinco dias depois, ele se filiou ao PSDB. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: Agora no g1